Flamengo Campeão

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Com mais de duas décadas de prática ininterrupta, o serviço de Psicologia do Clube de Regatas do Flamengo é um dos mais tradicionais do Brasil no trabalho psicológico com atletas de futebol. Ao longo dessa jornada, vem contribuindo efetivamente na formação de vários jogadores de destaque no futebol nacional e internacional. O trabalho dos psicólogos e estagiários de psicologia oferece acompanhamento e preparação psicológica a todas categorias do futebol, desde o mirim até o profissional. Há algum tempo também funciona no futsal, da categoria infantil até o adulto. O Serviço de Psicologia do Flamengo atende hoje a psicólogos e estudantes de psicologia do Brasil inteiro com instruções, referências e consultoria no trato desta área apaixonante. Aqui nesse espaço virtual você encontrará textos, artigos, notícias, blibliografia,dicas e reflexões, tudo para ajudar a psicologia do esporte nacional a alcançar o patamar que merece junto às ciências do esporte

Stress


Texto de Raquel de Mello Oliveira
Hoje em dia o stress acomete milhares de pessoas e não escolhe sexo, profissão, idade, escolaridade ou status social, entretanto poucos conhecem a fundo este “acompanhante” tão freqüente. A primeira notícia que pode surpreender algumas pessoas é que o stress não é uma doença e a segunda é que um pouco de stress é necessário para sobrevivência de todos nós.
O stress é um processo que engloba a neuropsicofisiologia do ser humano. Isso quer dizer simplesmente, que há uma interação entre fatores neurológicos, fisiológicos e psicológicos. Ele é gerado por qualquer situação que afete o equilíbrio do organismo, gerando desconforto em algum desses fatores. Situações difíceis, que irrite, amedronte, ou até mesmo faça a pessoa imensamente feliz podem causar stress. (Lipp & Malagris,1995, Lipp & Malagris, 2001). Isso mesmo, situações como ganhar na loteria também podem deixar as pessoas com stress, pois causam mudanças no equilíbrio do organismo.
Como disse anteriormente, o stress é um processo, e este processo é composto por fases, mais precisamente quatro. A primeira fase do stress, a fase de alerta, caracteriza-se pela preparação do organismo para a reação de luta e fuga, fundamental para a preservação da vida. Se o estressor persiste, inicia-se a fase de resistência, que se caracteriza pela tentativa do organismo adaptar-se, tendendo a procurar o equilíbrio interno. Caso não haja estratégias para lidar com o stress, o organismo exaure sua reserva de energia adaptativa e inicia-se a fase de quase-exaustão. A fase de exaustão vem seguida desta última, onde doenças mais sérias começam a aparecer e a pessoa não mais funciona adequadamente, geralmente não mais conseguindo trabalhar ou se concentrar. Há um aumento da exaustão psicológica em forma de depressão e exaustão física em forma de doenças, que podem culminar na morte do indivíduo (Lipp & Malagris, 2001).
Muitas alterações fisiológicas e psicológicas podem ocorrer como decorrência do processo de stress. Estas alterações podem influenciar na vida social, profissional e familiar de um indivíduo, havendo necessidade do manejo do stress visando a qualidade de vida e o bem-estar físico e psicossocial. Lipp (2000) propõe quatro pilares que devem ser fortalecidos para um bom manejo do stress, objetivando proporcionar alterações no estilo de vida. São eles: alimentação, relaxamento, exercício físico e cuidados com os aspectos psicológicos através de terapia.
O exercício físico traz benefícios no controle do stress, entretanto, quem o pratica com fins competitivos podem experimentar em algumas fases da vida o stress competitivo. Inúmeros, são os fatores que podem causar stress nos atletas, tantos que não caberiam aqui, o mais importante é destacar que a reação de stress dependerá das inter-relações entre o fator estressor, a avaliação cognitiva e a reação de stress. Pensamentos negativos, por exemplo, durante uma competição podem gerar ansiedade e influenciar na atenção, pois fazem com que os atletas focalizem em estímulos inadequados: preocupando-se com a preocupação. Influenciam ainda na coordenação e até na tensão muscular do atleta (Weinberg & Gould, 2001). Ratificando o que foi dito no início do texto: o stress afeta e é afetado por fatores fisiológicos, por isso os psicólogos do esporte devem estar atentos para o nível de stress de seus atletas, a fim de garantir não só a excelência no rendimento, mas também a sua saúde.

Referências
Lipp, M.E.N. (2000). Manual do inventário de sintomas de stress de Lipp (ISSL). São Paulo: Casa do Psicólogo.
Lipp, M.E.N. e Malagris, N.E.M.(1995) Manejo do estresse. In: Rangé, B. (Org.). Psicoterapia comportamental e cognitiva. Pesquisa, prática, aplicações e problemas. (pp. 279-292). Campinas, SP: Ed. Psy II.
Lipp, M.E.N. e Malagris, N.E.M.(2001) O stress emocional e seu tratamento. In: Rangé, B. (Org.). Psicoterapias Cognitivo-Comportamentais. Um diálogo com a psiquiatria. Porto Alegre: Artmed Editora.
Weinberg R.; Gould D.(2001) Fundamentos da psicologia do Esporte e do Exercício. Porto Alegre: Artmed.

O VALOR DA ESCOLHA PARA O ATLETA


Texto de Monique Sé de Castro

Seja qual for o ambiente esportivo, a liberdade de escolha, a responsabilidade para com tais escolhas e o valor destas escolhas para os atletas são continuamente vivenciados, porém, nem sempre verificados. As pessoas parecem não notar que escolhem tudo o tempo todo, incluindo a si mesmas, sempre. E até aquele que diz "eu não escolhi nada", quando viu, já escolheu... Levantou da cama (ou não – pode não querer levantar), escovou o dente, tomou banho (ou não – é uma possibilidade) se alimentou... QUANTAS ESCOLHAS VOCÊ FEZ HOJE?
Será que aquele que assume a responsabilidade sobre sua opção de ser-atleta obtém vantagens sobre os que não se dão conta de que estão se escolhendo a cada minuto? O atleta comprometido com suas escolhas, possivelmente, apresenta um comprometimento maior com suas tarefas, um aperfeiçoamento no desempenho realizado e esperado por este e, principalmente, mais resistência para aceitar as conseqüências dos caminhos escolhidos. Talvez valorize mais suas possibilidades e, por isso, permite-se dar novos sentidos à maneira como está se construindo.
Parece cruel, ser livre para fazer escolhas, não poder não se responsabilizar por isso e, ainda, assumir as conseqüências destas escolhas, sem a suficiente clareza do quanto elas afetam. Esta é uma maneira de pensar dentro do “existencialismo de Sartre” , no qual o homem é responsável pelo que é, e é livre de qualquer causa que possa determinar sua ação, pois tem seu caminho nas próprias mãos. Tudo vai depender do sentido que se dá para cada situação, para a experiência, para os atos, etc. O fato é que você se escolhe a cada momento, vai agindo e se criando pelo ato, só existe na medida em que se realiza e não é mais do que o conjunto dos seus atos.
Por exemplo, no futebol, mesmo que levado pelos pais, o menino está se escolhendo, ainda que não se dê conta disso. Está abrindo mão de outras possibilidades e vai existindo, simplesmente agindo e se fazendo atleta. Num dado momento, ele se dá conta do tempo que dedicou para a atividade e é angustiante sentir, mesmo que sem clareza, o ‘fardo’ da liberdade, que o permitiu fazer esta escolha, e, ao mesmo tempo, sentir o peso da obrigatoriedade de ser o único responsável pelo seu ser. Para descobrir essa liberdade basta entender minha possibilidade de escolha, pois a liberdade não está em se fazer o que quer, mas em se querer o que pode. E isso implica, necessariamente, me responsabilizar pelo próprio destino, aceitando que minhas escolhas possam me trazer possibilidades do bem e/ou do mal. Ser livre é isto! Implica em ter que dar sentido ao próprio ser e se responsabilizar por tudo quanto fizer.
Causa desamparo ter que escolher sem garantias da existência. Como saber se a escolha feita foi a melhor? Nada a fundamenta e ela só é melhor porque foi a escolhida. Por isso, as condutas não passam de possíveis.
Viver conflitos é escolher-se através deles e escolhê-los através da própria escolha de si mesmo. Ao assumir seus conflitos, escolhe-se e se faz, pois nada alheio determinou aquilo que sentem, vivem ou são. Se serão anos de vazio ou anos de conquistas e aprendizados, a responsabilidade é sua, o sentido será dado por você, só dependerá da maneira como você quer ver...
Compreender que temos tudo nas “mãos”, realmente não é fácil, mas é preciso, porque trata-se da construção de cada história. No futuro, é possível que conte aos seus filhos e netos: “fui atleta, na mesma época em que houve o Pan-Americano, no Rio de Janeiro”. Ninguém poderá lhe tirar isto, fará parte de sua história e terá sido a escolha de ser e o fazer-se nesta escolha .
É preciso pensar nas próprias possibilidades, em todas, incluindo aquelas que não agradam. Por exemplo, pensar em fim de carreira dói mesmo, afinal, foram anos de abdicações (uma escolha implica, necessariamente, abdicar de outra(s)). Mas é uma possibilidade e pensar nas possibilidades pode ser um “bom caminho” para fazer escolhas mais funcionais para sua vida. É preciso se comprometer, pois, por mais que tente, ninguém vai se livrar, nem sequer por um instante, desta responsabilidade. E querer se livrar dela também trará implicações, pois também é uma escolha. É impossível não escolher. Não fazer nada já é uma escolha.
Lamentar , por um lado, pode ser enganar-se, tentar transferir a responsabilidade... Por outro lado, pode ser o questionar-se, do ponto de vista da própria manifestação da liberdade e não da comodidade. Cabe ao psicólogo investigar o quanto as lamentações são um auto-engano ou apenas uma reivindicação pertinente e apropriada. É importante saber o que esses jovens estão fazendo com suas insatisfações. Por que preferem certos valores ao valor da própria recusa? Por querer a estima dos parentes ou por querer dar o melhor para a família, ser famoso, ou por covardia frente à opinião dos outros? A pessoa-atleta, mesmo com as dificuldades e injustiças, escolheu ser atleta e essa escolha será repetida, continuamente, até o fim da carreira. Desistir é uma possibilidade, ele pode fazer com que tal realidade planejada não venha a existir. Mesmo que coagido a continuar, não poderá ter sua liberdade dominada e, ainda, será responsável pela forma como viverá nesta realidade.
A relação entre escolha e valor é “gritante” e, ao mesmo tempo, preocupante, porque o preço é alto para determinadas escolhas. Atletas são tratados como mercadorias (vendidos, dispensados, emprestados,...). São objetos consumíveis ! Vantagem leva os que se recusam a valorizar apenas os resultados e percebem as vitórias como apenas uma conseqüência de um conjunto (eficiência de todos os envolvidos, dedicação, cooperação, etc.) e procuram se concentrar na superação dos próprios limites.

Referências
1 - BERESFORD, HERON. Valor: saiba o que é. Rio de Janeiro: Shape, 1999.
2 - CAPINUSSÚ, J. M. “Manifestações Interdisciplinares no Esporte”. Revista de Educação Física – Ano 1, Nº 1, p. 52 – 57. Rio de Janeiro: DPEP, 2006.
3 - FEIJÓ, OLAVO G. Corpo e Movimento. Uma Psicologia para o Esporte. Rio de Janeiro: Shape, 1992.
4 - PERDIGÃO, P. Existência e Liberdade: uma introdução à filosofia de Sartre. Porto Alegre: L&PM, 1995.
5 - RUBIO, KATIA. “Ética e Compromisso Social na Psicologia do Esporte”. Psicologia Ciência e Profissão – Ano 27, Nº 2, p. 304 – 315. Brasília: Conselho Federal de Psicologia, 2007.
6 - SARTRE, J. O Ser e o Nada: ensaio de fenomenologia ontológica. Tradução e notas de Paulo Perdigão. 10. Ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2001.
7 - SILVA, F. LEOPOLDO E. “Desejo de Ser”. Viver: mente&cérebro – AnoXIV, Nº 156, p. 86 – 93. São Paulo: Duetto, 2006.

Desenvolvimento Saudável dos Jovens Atletas



Autoria: Raquel de Mello Oliveira*; Erick Conde & Adriana Lacerda

O futsal é uma das modalidades esportivas mais praticadas pelas crianças brasileiras, em nível recreacional, escolar ou competitivo. Inúmeros estudos, como os de Becker Jr (2000), Vilani (2001) e Samulski (2002) demonstram a necessidade de se pesquisar o nível de stress a que são submetidos os jogadores, em especial os federados, pois sofrem maiores cobranças por resultados, mesmo estando em tenra faixa etária onde o objetivo é apenas a formação de atletas.
O treinamento precoce ocorre quando crianças são expostas antes da puberdade, a um processo de treinamento planejado e organizado em longo prazo, que se efetiva em um mínimo de três sessões semanais, com o objetivo do gradual aumento do rendimento, além da participação periódica em competições esportivas ( Kunz, 1994, citado por De Rose Jr, 2002)
Por desenvolvimento, entende-se (Ferraz,2002): fases ou estágios que podem ser identificados caracterizando um processo ordenado e seqüencial, embora a velocidade com que essas fases ou estágios são percorridos, seja extremamente variável de indivíduo para indivíduo, sofrendo fortes influências ambientais. Quando se analisa o problema de a criança estar preparada para participar de competições no esporte, é necessário considerar a questão da prontidão e do período ótimo de aprendizagem. Prontidão esportiva é o equilíbrio entre o nível de crescimento, de desenvolvimento e de maturação e o nível da demanda competitiva. Está relacionada com os pré-requisitos necessários para o envolvimento de crianças e de adolescentes em novas experiências. O período ótimo de aprendizagem está baseado na noção de que, durante o desenvolvimento, alguns momentos são ideais para se promoverem novas aprendizagens, significando que as capacidades necessárias estão presentes no indivíduo, ou seja, a prontidão. Antes desse período, determinados conteúdos ficam prejudicados e, após esse período, perde-se a oportunidade de se explorar o melhor potencial desse indivíduo (Malina, , citado por Ferraz,2002)
Diversos fatores podem afetar diretamente o comportamento dos jovens, dependendo do seu nível de prontidão. Muitos atletas são submetidos a diversas formas de cobrança provenientes de diversas fontes como pais, torcida, estabilidade financeira, comissão técnica e as próprias cognições do atleta. Segundo Ferraz (2002). Quando a demanda for maior que as características individuais, então o indivíduo não está pronto para competir. É nesse desequilíbrio que se pode encontrar o grande aspecto negativo da competição infanto-juvenil. Quando isso ocorre e a criança e o jovem é submetido a desafios, surgem problemas de ordem física, fisiológicas, sociais e psicológicas (emocionais e cognitivas) afetando sua Qualidade de Vida.
O excesso de treinamento e de competições podem também prejudicar a vida social do atleta. Isso acontece quando ele não tem mais tempo para os amigos ou para outras atividades que lhe dão prazer. Isso implica, para os atletas mais jovens, em um fim precoce da infância, com um acúmulo de responsabilidades que, na maioria das vezes, ele ainda não está preparado para enfrentar. Por isso acaba entrando em processo de burnout (esgotamento, que pode ser físico ou mental), e quer logo fazer o que seus amigos, da mesma faixa etária, estão fazendo (Gould et al,1999). É importante deixar as crianças se envolveram com atividades fora do ambiente de treino e competições. Deixar as crianças serem crianças, sem confundir o jovem atleta com o atleta jovem.
Para o desenvolvimento saudável dos atletas seria necessário que as pessoas envolvidas com estes (Comissão Técnica, Departamento Médico, Psicologia, Serviço Social, Nutrição e pais), estivessem cientes da precocidade e das cobranças a que estão sendo expostos, e que o manejo das condições biopsicossociais desses indivíduos deva ser muito bem trabalhado para que seu desenvolvimento seja saudável e contínuo.

Referências:

Becker Jr, B. (2000). Psicologia Aplicada à Criança no Esporte. Novo Hamburgo: Feevale

De Rose Jr., D.M (2002b).Esporte e atividade física na infância e adolescência: uma abordagem multidisciplinar. (pp.39-49)Porto alegre:Artmed Editora

Ferraz, O. L. (2002) O esporte, a criança e o adolescente: consensos e divergências. In De Rose Jr., D.M (Org.) Esporte e atividade física na infância e adolescência: Uma abordagem multidisciplinar. (pp.25-38) Porto alegre:Artmed Editora

Gould D. et al. (1999)Positive and negative factors influencing U.S. Olympic athlete and coaches: Nagano Games assessment. U.S. Olympic Committee Sport Science and Technology Final Grant Report. Colorado Springs

Samulski, D. M (2002) A psicologia do esporte:Belo Horizonte: Ed Manole

Vilani, L.H.P. (2001) Considerações Gerais da Psicologia do Esporte Pediátrica: Uma revisão da influência do contexto psicológico sobre jovens atletas. Belo Horizonte:


* Ex estagiária de Psicologia, Psicóloga do Futsal - Clube de Regatas do Flamengo.