
Tantas são as frases que por vezes ate me pego rindo sozinho. Ai seguem alguns exemplos: "Temos que mexer com o psicológico dos jogadores", "É hora de trabalhar a parte psicológica dos atletas", " Nesse momento a parte psicologica conta muito", "O emocional fez a diferença nesse jogo", "Os atletas sentiram a pressão emocional" e outras tantas pérolas ditas por treinadores de nome no cenario esportivo nacional. Cabe uma perguntinha que não quer calar: Como é que se mexe na parte psicologica de um jogador? Tem algum novo aparelho para tal? Em que hora se deve trabalhar a parte psicológica? Em que momento que a parte psicológica conta de fato em um atleta? Essas frases me assustam e me fazem refletir sobre essa palavra "parte". Será que de fato dá para dissociar o mental do físico? Ou tudo que aprendi até então sobre fisiologia está equivocado? Será mesmo que ainda existem treinadores que acreditam que estão "mexendo no psicológico" somente em determinados momentos de uma competição? Pasmem, mas ainda é uma verdade. Não fosse isso, os consultores de melhoria de performance, os engenheiros motivacionais e os personal emotions estariam com certeza fazendo outra coisa da vida. E o pior é que não estão. Eles ainda "ajudam" treinadores e dirigentes a mexer no psicológico. É patético! Sem falar nos treinadores que insistem em ter um tal perfil psicológico dos jogadores como se isso fosse a única coisa que um psicólogo do esporte pudesse fazer. Em vez disso, esses treinadores deveriam ter no psicólogo um aliado, um consultor, uma pessoa que lhe ajudasse no planejamento e nas estratégias para enfrentar as dificuldades que um grupo de pelo menos 25 pessoas necessita para estar saudável , para estar ligado nos objetivos, nas metas e, mais ainda, para embarcar com ele (treinador) num caminho de confiança mútua, de alicerces fortes para suportar as pressões que certamente estarão muito fortes sobre o trabalho ao longo da temporada. Ao invés disso, eles preferem continuar a mexer no emocional em horas pré-determinadas. Como se de fato mexer no emocional fosse possível somente em alguns momentos. O emocional esta presente a todo instante. Está presente na relação com a comissão técnica, com os dirigentes, com a torcida e com o compromisso que se trava na longa disputa por um titulo. O emocional não é um lugar, é um estado de espírito que depende de harmonia, de confiança, de troca, de amizade, de pertencimento, de pensamento, de crenças e de engajamento num projeto em que estão inseridos seres humanos que tem vaidades, peculiaridades e emoções desconhecidas que precisam de treinamento e de trabalho para se tornarem úteis e positivas.
Convenhamos meus amigos que todo movimento existe em função de uma nascente psicológica. Portanto, essas frases somente cabem naqueles que de uma forma ou de outra ainda insistem em negar a vertente da psicologia na constituição e construção de um atleta. Mais ainda, determinados treinadores temem por sua sobrevivência caso estejam com um psicólogo do esporte em sua comissão técnica justamente por desconhecerem esses preceitos que regem a base da atividade humana no desporto. Sonho com um momento onde não mais haverá tanto desconhecimento acerca da psicologia do esporte e de seus alicerces ligados à pratica da atividade esportiva regida pelas correntes psicofisiologicas do corpo humano. Mas para que esse sonho aconteça, os colegas psicólogos também devem ajudar saindo do campo do abstrato e partindo para um patamar onde se mostre a necessidade de corrigir emoções distorcidas e viciadas através da pratica da neurociência. Pensem nisso!
Paulo Ribeiro
Psicólogo Futebol Profissional do Flamengo
Chefe do Depto de Psicologia
Conselho Científico da Associacao Brasileira de Stress